A meritocracia é um dos princípios fundadores do movimento do software livre e de código aberto. É também um dos termos mais controversos, e a diferença entre os diversos significados que as pessoas lhe atribuem é, em alguns projetos, fonte de conflitos reais e prejudiciais.
Vamos analisar o significado da palavra, pois sua potencial ambiguidade pode influenciar significativamente o debate e os diversos pontos de vista.
A teoria da legitimidade baseada no gráfico de commits
Uma versão da meritocracia defende que a autoridade de governança deve seguir a contribuição, e que a contribuição é melhor medida por meio do código. De acordo com essa visão, as pessoas que mais contribuíram para o código têm o direito de decidir o futuro do projeto, pois conhecem o código-fonte e têm um interesse pessoal no sentido mais literal do termo.
Essa não é uma posição irracional para um projeto em seus estágios iniciais. Embora também seja necessário considerar a infraestrutura, levantar fundos e gerenciar as relações com a mídia e as instituições, quando o principal desafio é de natureza técnica, quando a comunidade é pequena e quando os riscos são baixos, faz sentido que aqueles que realizam a maior parte do trabalho também tomem a maioria das decisões.
O problema surge quando o princípio é transportado inalterado para um contexto muito diferente. Um projeto de software livre que está em funcionamento há quinze ou vinte anos, é usado por milhões de pessoas, opera em um ambiente regulatório e jurídico complexo, tem usuários corporativos e implicações políticas, não é mais a mesma coisa. Aplicar a mesma governança dos primeiros dias à realidade de um grande projeto não produz bons resultados, mas sim uma organização tecnicamente sofisticada e estrategicamente cega.
O que o gráfico de commits não mede
A teoria da meritocracia baseada no número de commits tem um ponto cego: ela mede apenas um tipo de contribuição e torna os outros quase invisíveis.
Vamos considerar o que não está no gráfico.
- Os autores da documentação que tornaram o software acessível a usuários que, de outra forma, teriam desistido de usá-lo.
- A equipe de localização que envolveu comunidades linguísticas inteiras no projeto.
- Os revisores que transformaram relatórios de bugs preliminares em relatórios prontos para resolução.
- Os moderadores da comunidade que mantiveram o projeto acolhedor para recém-chegados, à custa de um esforço pessoal considerável.
- As pessoas que passaram anos construindo relacionamentos com a mídia, instituições e a esfera política, criando as condições para a ampla adoção do software.
Essas contribuições não geram commits, mas geram usuários, adoção, sustentabilidade e relevância. Em um projeto maduro, elas frequentemente fazem a diferença entre um software que existe e um software que importa.
Um modelo de governança que exclui esses colaboradores do processo de tomada de decisão, ou busca marginalizá-los, é uma meritocracia parcial, na medida em que reconhece apenas um tipo de excelência enquanto ignora todos os outros.
O problema dos conflitos de interesse
Há uma segunda dimensão nesse argumento que merece análise.
Quando a governança de um projeto também inclui pessoas empregadas por empresas com interesses comerciais diretos na direção do projeto, a questão da meritocracia se torna mais complexa. A questão não é se esses colaboradores são capazes — pois certamente o são —, mas se as estruturas de governança construídas em torno de suas contribuições podem produzir, de forma confiável, decisões que atendam à missão do projeto, em vez dos interesses de seus empregadores.
Isso não é uma acusação, mas uma simples observação. Conflitos de interesse não estão ligados à má-fé, mas são inerentes à situação. Um modelo de governança que não leve isso em conta deixa de ser meritocrático e também fica menos consciente de suas próprias limitações.
Uma governança saudável em um projeto FOSS maduro requer uma diversidade de perspectivas: pessoas que contribuem com código, mas também pessoas que representam a comunidade de usuários, a missão institucional e a sustentabilidade de longo prazo do projeto como um bem público, em vez de um ativo comercial. Não se trata de excluir desenvolvedores, mas de garantir que nenhum interesse isolado — por mais legítimo que seja — seja o único fator determinante das decisões.
Construindo para aqueles que virão depois de nós
Todos os grandes projetos de FOSS são intergeracionais, porque as pessoas que os criaram não são as mesmas que os sustentarão daqui a dez ou vinte anos; portanto, as decisões tomadas hoje sobre arquitetura, governança e quais contribuições são valorizadas e quais não são moldarão o que a próxima geração herdará. E isso deve ser algo sobre o qual se construir, não algo a ser contornado.
Isso redefine completamente a questão da meritocracia. Dessa perspectiva, de fato, a medida de uma contribuição não é determinada apenas por seu valor atual, mas também por seu valor para o futuro do projeto.
A meritocracia em um grande projeto de código aberto não reside no acúmulo de commits como uma reivindicação de autoridade, mas na criação das melhores condições para que o projeto continue crescendo no futuro. A questão não é quem fez mais, mas quem está construindo algo que a próxima geração possa realmente usar e desenvolver ainda mais.
Nosso entendimento de meritocracia
O princípio original que sustenta a meritocracia do FOSS continua válido: as decisões devem ser tomadas por aqueles que fazem o trabalho, que compreendem as consequências e que conquistaram seu lugar por meio de contribuições genuínas, e não por meio de políticas organizacionais. Esse princípio deve ser preservado.
As contribuições, no entanto, podem assumir muitas formas, e o mérito tem uma dimensão temporal que o gráfico de commits não consegue capturar. O mérito de construir o código-fonte é real e merece reconhecimento, mas isso também se aplica ao mérito de construir uma comunidade, manter a documentação, garantir a acessibilidade, lidar com complexidades jurídicas e assegurar as relações institucionais que mantêm o projeto vivo para as pessoas que o herdarão.
Uma verdadeira meritocracia encontra uma maneira de reconhecer e valorizar tudo isso. Um projeto que confunde meritocracia com o domínio de um único tipo de colaborador, por mais especialista que seja, não consegue estar à altura de seus próprios valores. E um projeto que se curva aos interesses de um subconjunto de colaboradores, em detrimento das gerações futuras, não é uma meritocracia, mas uma forma de apropriação mascarada pela linguagem da justiça.
A meritocracia é um conceito complexo e multifacetado que vale a pena explorar para construir algo que as futuras gerações terão prazer em herdar.
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Fonte do texto: The Document Foundation Autor: Italo Vignoli Tradução e Imagem: Eliane Domingos - elianedomingos@libreoffice.org

