ODF vs. OOXML: um problema que nunca deveria ter existido

ODF vs. OOXML: um problema que nunca deveria ter existido

Vários jornalistas interpretaram o artigo da semana passada como um ataque à Microsoft. Queremos explicar o que lhes passou despercebido.

Sempre que abordamos a diferença entre ODF e OOXML, algumas pessoas interpretam isso como uma campanha contra uma empresa. Não é o caso. Estamos tentando fazer algo muito mais útil: esclarecer o problema estrutural do formato padrão de documentos para aqueles que precisam conviver com ele: funcionários públicos, educadores e, acima de tudo, cidadãos comuns.

Todas essas pessoas se veem diante de um problema que não criaram, mas que as afeta diariamente e do qual muitas vezes são vítimas involuntárias, sempre que criam ou recebem um documento.

O mínimo que podemos fazer – e, na verdade, já fazemos isso há vinte anos, embora até agora quase ninguém tenha ouvido – é explicar, de forma clara e sem dramatismo, como o problema surgiu, por que persiste e por que o ODF é a única saída. Trata-se de um objetivo educativo e altruísta – não vendemos software, portanto não temos nenhum interesse comercial a proteger – e não um ataque a uma empresa.

O problema diz respeito ao panorama atual dos documentos, baseado quase exclusivamente em um formato proprietário controlado por uma única empresa, e ao que poderíamos ter tido em vez disso: um formato padrão controlado por uma comunidade independente de partes interessadas.

A Microsoft aparece nesta história devido ao comportamento de monopolista racional que tem exibido desde 2006, durante e após a padronização do formato proprietário OOXML: primeiro prometendo o padrão e depois fazendo todo o possível para garantir que ele fosse primeiro ignorado e depois esquecido, discretamente, mas com extrema determinação. Tudo isso para proteger uma participação de mercado que hoje vale mais de US$ 30 bilhões, que estaria em risco de erosão se o formato de documentos tivesse sido genuinamente padronizado: a migração para qualquer outro pacote de escritório teria sido, então, isenta de custos e complexidade.

Hoje, a maioria das organizações – órgãos públicos, organismos supranacionais, empresas – e a maioria dos usuários individuais enfrenta um problema que, se todos tivessem ouvido especialistas independentes entre 2006 e 2008, nunca teria existido. O sistema internacional de normas e os governos nacionais permitiram que um único fornecedor – em vez da comunidade de desenvolvedores, analistas de sistemas e estudiosos de normas que levantaram objeções – estabelecesse os termos sob os quais os documentos seriam arquivados. Esse fornecedor escolheu seu próprio formato proprietário.

O problema, em outras palavras, foi criado por instituições — a ISO, organismos nacionais de normalização, funcionários públicos e, em última instância, políticos — que abordaram a escolha do formato para documentos públicos de maneira totalmente acrítica. Eles confiaram no processo apesar dos protestos repetidos e legítimos sobre sua transparência, e nunca pensaram em realizar uma simples análise de arquivos que, em poucos minutos, teria levantado mais do que algumas dúvidas. A indústria seguiu então a liderança do fornecedor, por conveniência, porque isso expandia os negócios – sem ponderar as consequências de médio e longo prazo para as instituições e usuários individuais. O que é preocupante é que até mesmo um segmento da indústria de código aberto seguiu a corrente e continua a fazê-lo, como mostra o fato de que hoje apenas dois pacotes de escritório de código aberto – o LibreOffice e o Collabora Office – usam o ODF como seu formato de arquivo nativo.

Se entre 2006 e 2008 todos tivessem feito sua parte, hoje haveria um único padrão aberto de interoperabilidade entre vários fornecedores para documentos de escritório – o nosso ODF – governado de forma neutra e implementado por todos. Todos teriam se beneficiado, porque a troca de documentos baseada em um padrão verdadeiro é completamente transparente e independente do sistema operacional e do software aplicativo. A Microsoft poderia ter mantido seu próprio formato proprietário interno como um mero detalhe de implementação, invisível aos usuários, porque os documentos teriam circulado sem problemas através do padrão. Um mundo ideal que nunca se tornou realidade.

Em vez disso, a padronização acelerada do OOXML pela ISO em 2008, contra todas as objeções técnicas, produziu o formato OOXML Transitional que usamos hoje: um modo de compatibilidade temporário, explicitamente definido como uma ponte a ser atravessada uma vez e depois desmontada. Ele não foi desmantelado. Tornou-se a única variante usada, em todos os níveis, pela maioria dos pacotes de escritório. Hoje, a grande maioria dos documentos de escritório em todo o mundo — incluindo os documentos públicos de instituições públicas e de governos em todos os lugares — é salva em um formato que seus próprios criadores haviam declarado provisório.

Mesmo o OOXML Strict não resolveria o problema. A Microsoft nunca o promoveu — parte, como já explicamos, de uma estratégia compreensível — e nenhum dos que deveriam supervisionar o processo jamais solicitou ou verificou sua implementação nos prazos prometidos na padronização, a partir de 2010. Mas o ponto mais profundo é este: o Strict é simplesmente uma variante diferente do mesmo formato de fornecedor único. Um padrão não é aberto porque sua especificação foi publicada. Ele é aberto quando é desenvolvido por meio de um processo transparente que nenhuma empresa isolada pode controlar e mantido por uma comunidade independente de usuários e implementadores. Substituir o Transitional pelo Strict muda a variante, mas deixa a governança — que é o que determina a soberania — exatamente onde estava.

Portanto, quando defendemos o ODF, não estamos criticando nada. Estamos tentando esclarecer um problema que foi criado artificialmente e perguntar por que um problema criado artificialmente é tratado pela maioria das partes interessadas — organizações, governos, empresas e indivíduos — como um fato natural estabelecido.

A atenção à soberania digital está crescendo, mesmo que a resistência continue forte, porque a conscientização sobre essa questão — que nunca deveria ter surgido — ainda é praticamente inexistente, não apenas entre os usuários, mas entre os próprios profissionais do setor.

Continuamos a acreditar que o ODF pode recuperar o papel que deveria ter desempenhado após 2006, quando foi aprovado – com razão – como norma ISO, pois possuía todas as características de um padrão aberto. O Deutschland Stack restaura esse papel ao ODF, e esperamos que a decisão do governo alemão não permaneça isolada.

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Fonte do texto: The Document Foundation
Autor: Italo Vignoli
Tradução e Imagem: Eliane Domingos - elianedomingos@libreoffice.org

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